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O início de 2020 trouxe um vírus desconhecido para a Humanidade e que logo causou impactos devastadores um pouco por todo o mundo.

Não só foi uma preocupação de saúde pública, mas também de saúde financeira. Pois as economias foram obrigadas a paralisar completamente, algo que nunca tinha acontecido na História da Humanidade.

Milhares de empresas não aguentaram estar meses seguidos com vendas ZERO, e muitas foram aquelas que fecharam. Pior, milhões de pessoas ficaram desempregadas um pouco por todo o mundo.

E as perspetivas económicas continuam para o futuro próximo continuam negativas…milhares de empresas continuam a fechar e milhões de pessoas continuam a ficar sem emprego.

No entanto, o Mercado de Ações parece dirigir-se no sentido oposto. Enquanto que a sociedade vê a economia a colapsar, os mercados financeiros veem as ações prosperar. Enquanto milhões perdem as suas fontes de rendimento, as Bolsas animam-se um pouco por todo o mundo.

 

Isto tem sido evidente principalmente no principal índice de ações Norte-Americano, o índice S&P500.

Depois de ter caído 30% em apenas 19 dias, já praticamente recuperou a totalidade das perdas em dois meses. Este foi dos Bear Markets mais rápidos de sempre!

Será que esta recuperação se justifica?

Ou será que estamos a assistir à criação de uma Nova Bolha?

Neste artigo respondo a estas perguntas.

 

 

Temas abordados:

  • Especulação em empresas falidas
  • Confusão de nomes de empresas cotadas em Bolsa
  • Explicações para a especulação observada
  • Economia Walking Dead
  • Os setores dominantes no índice SP500
  • Razões para o otimismo

 

 

1. Os especuladores estão a ter um papel preponderante no mercado

O número de especuladores aumentou muito nos últimos meses. Há pessoas a negociar empresas falidas como nunca se viu antes!

Há pessoas a negociar empresas como a Hertz, uma empresa de aluguer de veículos que faliu recentemente. O problema é que uma empresa falida vale ZERO!

Ainda assim, entre 26 de maio e 8 de junho de 2020 a ação subiu 887%. É verdade, em apenas uma semana a empresa viu as suas ações valorizarem 887%, quando vinha com uma tendência descendente e já tinha perdido 96% do seu valor em Bolsa desde o início do ano.

Mais à frente veremos algumas potenciais explicações para este fenómeno, nunca antes observado numa empresa falida e que vale, repito, ZERO!

 

 

2. Os investidores estão a confundir alhos com bugalhos

Outra loucura que tem acontecido nos mercados é a confusão entre empresas com nomes semelhantes.

Por exemplo, aos investidores têm confundido ações da empresa Zoom Technologies (OTCMKTS: ZTNO) e da ZoomInfo Technologies (NASDAQ: ZI) com a original da Zoom Video Communications (NASDAQ: ZM).

Apesar da empresa que providencia a plataforma de videoconferência ZOOM ter subido 120% até ao dia 20 de março de 2020 (que foi quando o Bear Market em 2020 atingiu o seu valor mínimo), a Zoom Technologies subiu 1800% no mesmo período!!! Uma loucura! Claro que, entretanto, o preço foi corrigido, e caiu 98% desde aquela data!

Mais tarde, a ZoomInfo Technologies, que fez a sua Oferta Pública Inicial (IPO) a 4 de junho de 2020, só por ter um nome parecido com a original do Zoom teve uma valorização estapafúrdia e vale em mercado mais de $17 biliões, quando nem sequer tem lucros (só tem prejuízos!!!). Como é que uma empresa que não apresenta lucros pode ter uma avaliação tão elevada? Também me pergunto o mesmo…

Agora pasma-te com a seguinte…

Maior loucura aconteceu recentemente com a empresa de imobiliário FANGDD, que tem um nome parecido ao acrónimo FAANG, que define cinco das empresas com maior crescimento a nível mundial: Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google. A confusão entre os nomes desta empresa chinesa com o acrónimo das grandes empresas americanas fez o preço da construtura FANGDD disparar 400% num só dia!! A 9 de junho de 2020 a ação disparou dos $9.51 para os $47.06. Surreal!

 

3. Possíveis explicações para estes factos

O que poderá explicar esta especulação em empresas falidas e esta confusão entre empresas cotadas?

Em primeiro lugar, é preciso perceber que, com a economia paralisada, muitas casas de apostas estiveram fechadas durante o Confinamento. Isto quer dizer que as pessoas não tinham onde desperdiçar o seu dinheiro, como normalmente o fazem. Para além disso, os desportos foram praticamente todos cancelados, o que impossibilitou as pessoas de aposta. Falta de desportos e de casas de apostas fizeram com que as pessoas tivessem de apostar noutra coisa qualquer…parece que escolheram o mercado de ações para o fazer!

Nos Estados Unidos, o governo ofereceu cheques de $1000 a todos os cidadãos. Ou seja, dinheiro fresco para gastar. Só que, com tudo fechado, as pessoas preferiram usar esse dinheiro para especular em Bolsa, um dos poucos espaços que se manteve operacional.

Para além disso, o número de corretoras online a oferecer negociação de ações a custo zero tem vindo a crescer a um ritmo alarmante. Há cada vez mais corretoras a oferecer comissões extremamente atrativas, algumas chegam mesmo a oferecer negociação de ações a custo zero. Isto atrai jovens investidores que nada sabem sobre Bolsa, mas que se veem com dinheiro fresco que podem usar para especular numa plataforma sem comissões. Não vou detalhar a questão aqui, mas se procurares no Google por Robinhood, encontrarás casos que terminaram muito mal para os investidores nesta plataforma, pois não sabiam que estavam a negociar produtos tóxicos, derivados de outros ativos financeiros que não são para o investidor comum.

A Reserva Federal Norte-Americana (FED) e o Banco Central Europeu (BCE) compraram ativos como nunca antes o tinham feito. Para salvar o sistema, injetaram biliões de dólares e de euros nas economias, tentando a todo o custo salvar pequenas, médias e grandes empresas. A injeção de liquidez em alguns países chegou a ser 5x maior do que em 2009, aquando da Grande Recessão. Compraram ETFs que não olham a preços nem valores, compraram obrigações de empresas (incluindo obrigações-lixo de empresas em dificuldade)… enfim, tudo está a ser comprado sem olhar a meios. Só para “salvar” o sistema. E não me interpretes mal: efetivamente era preciso esta injeção de liquidez brutal, ou, de outra forma, poderíamos voltar a sentir uma Grande Depressão como nos anos 30… e ninguém quer isso, certamente!

Alguns analistas já designam esta economia de “Walking Dead”. Com os Bancos Centrais a comprarem obrigações-lixo, mantêm-se vivas empresas que não produzem nada, só geram prejuízos, e tiram margem de mercado a empresas que realmente produzem benefícios para todos: consumidores, acionistas, governos, e sociedade em geral. É uma espada de dois gumes: por um lado, precisámos desta brutal injeção de liquidez para salvar o sistema; por outro lado, salvámos empresas-zombie que estão a tirar recursos a outras empresas que realmente beneficiariam a sociedade. Não há uma solução simples para este problema complexo.

Some-se todos estes pontos e temos o cocktail perfeito para uma Bolha: gente com dinheiro fresco que nem sabe de onde ele veio, necessidade de apostar em algo, stress de confinamento, negociação gratuita de ações, injeção de liquidez…PUFF!!!

 

 

4. O índice S&P500 representa a economia real?

O índice SP500 está, em 2020, dominado por empresas tecnológicas. Quando olhamos para os principais constituintes do índice, vemos que 20% está representado por apenas 5 empresas, todas elas do setor tecnológico com alta predominância online.

 

A última vez que tal aconteceu foi mesmo antes da Bolha Tecnológica rebentar em 1999. Nessa altura, também apenas 5 empresas pesavam no índice.

São estas empresas tecnológicas que estão a puxar pelo índice em 2020.

Ou seja, a valorização rápida do índice SP500 no segundo trimestre de 2020 não significa que a economia tenha recuperado rapidamente. Significa, isso sim, que as empresas que constituem a maioria do índice conseguiram ganhar ainda mais escala, pois beneficiam de uma economia cada vez mais ligada online. Empresas como a Amazon ou a Microsoft beneficiaram imenso, pois a primeira vendeu mais a quem não tinha hipótese de visitar uma loja física (pois estavam fechadas), e a segunda porque beneficiou da nova realidade: o teletrabalho. Também a Netflix beneficiou neste período porque houve mais gente confinada em casa, sem saber o que fazer, e com necessidade de consumir filmes e séries. Estas empresas estão adaptadas à nova realidade, e beneficiaram deste Confinamento.

Contudo, elas estão a ficar muito caras. Algumas destas empresas tecnológicas estão a cotar a 30x ou 40x os seus lucros. A Amazon, pasme-se, está a cotar a 140x os seus lucros!!! Isto significa que, mantendo-se tudo igual, precisaríamos de 140 anos para recuperar o investimento na Amazon. Uma loucura!!!

Claro que alguns dirão que estas empresas estão a ser revolucionárias e que se justifica pagar um preço elevado por elas. É verdade que são revolucionárias e vão beneficiar cada vez mais do novo paradigma. Mas nenhum negócio justifica pagar-se um preço infinito por ele. Este fenómeno aconteceu com as 50 “Mais-Finas” (Nifty Fifty) nos anos 70. Empresas como a McDonald’s, Coca-Cola, Disney, IBM, etc. eram as preferidas dos investidores, e muitos estavam dispostos a pagar um preço qualquer por elas. Algumas destas empresas estavam a cotar a 60x e 70x os seus lucros!! Apesar de que algumas destas continuaram a crescer ao longo dos tempos, 50 anos depois quase ninguém fala de outras tantas que, naquela época, estavam estupidamente caras. Empresas como a Xerox, Kodak, Polaroid, ou a Eli Lilly… caíram no esquecimento. Mesmo a McDonald’s e outras grandes empresas tiveram uma década de retorno ZERO! Imaginaste a ficar 10 anos a ver a ação a lateralizar? A não rentabilizar o teu capital?

Há um princípio básico em investimento:

Uma excelente empresa não é necessariamente um excelente investimento, e até uma empresa medíocre pode ser um excelente investimento, se compra a bons preços.

5. Razões para otimismo

Para ser justo nesta análise, quero apresentar-te agora alguns indicadores que podem justificar esta recuperação extraordinária do índice SP500.

Por um lado, as Taxas de Juro nunca estiveram tão baixas. Estamos com taxas próximas de 0% nos EUA ou em terreno negativo na Europa. Isto são “mares nunca de antes navegados” (como diria o nosso querido Luís Vaz de Camões)!

Nos anos 80, as Taxas de Juro chegaram a superar os 15%, pelo que pedir dinheiro emprestado era mais caro.

As Taxas de Juro representam o custo do dinheiro. Quando as empresas pedem dinheiro emprestado aos bancos, têm de o devolver ao longo do tempo acrescido de juros, que são calculados com base nas Taxas de Juro vigentes na altura. Se num dado momento as Taxas de Juro são próximas de zero, então isso quer dizer que as empresas conseguem ter, praticamente, “almoços-grátis”. Conseguem alavancar os seus negócios mais rapidamente. Conseguem investir mais dinheiro a desenvolver novos produtos e serviços e, assim, crescer mais depressa.

É por isso que as empresas se estão a endividar mais, pois há perspetivas de maior crescimento nos próximos anos.

E é por isso que, considerando esta perspetiva, as ações parecem baratas! Os investidores percebem que com Taxas de Juro Zero as empresas conseguem crescer mais rapidamente… e estão dispostos a pagar um preço mais elevado pelos lucros dessas empresas.

Por isso, até se pode justificar que algumas empresas estejam a cotar a 25x ou 30x os seus lucros, pois antecipa-se um futuro brilhante para muitas delas que, com economias de escala, beneficiam da nova realidade…uma realidade cada vez mais global, tecnológica, ligada online.

E com Taxas de Juro a Zero ou Negativas, não há outra hipótese se não investir em ativos que eram considerados, tradicionalmente, de maior risco. Já não compensa colocar o dinheiro em Depósitos a Prazo ou em Dívida do Estado, que gera 0% de retorno para o nosso investimento! É necessário procurar ativos que beneficiem com as Taxas de Juro tão baixas e que, acima de tudo, valorizem acima da Inflação.

 

Por último, importa também dizer que, apesar de eu considerar que podemos estar a entrar numa nova Bolha Financeira – alimentada pelos Bancos Centrais e especuladores novos no mercado – e que o índice S&P500 está completamente desfasado da realidade, há oportunidades!

Há oportunidades para quem souber onde as procurar. Apesar de a maioria das empresas tecnológicas estar com avaliações muito caras, o que aumenta o risco do investimento, existem oportunidades noutros setores, como os do turismo, restauração, banca e seguros, e comunicações. Setores que foram severamente afetados pela Pandemia, com algumas empresas a desvalorizarem em Bolsa mais de 50%, mas que agora oferecem oportunidades únicas de investimento. É quando se paga um preço baixo por excelentes empresas que se obtém as maiores rentabilidades. O risco é muito menor quando o preço ao qual uma empresa está a cotar em Bolsa está abaixo do seu valor intrínseco – ou seja, quando pagamos 5 euros por uma nota de 10€. Quem não gostaria de pagar sempre metade, não é verdade?

Nota para o futuro: mesmo num índice sobre-avaliado, mesmo numa situação desfasada da realidade, há oportunidades. É preciso é saber onde procurá-las!

Nas palavras de Peter Lynch, um dos maiores investidores do séc. XX: “a pessoa que vira mais pedras, é a que ganha o jogo”. Vai à procura das oportunidades e vira tantas pedras quantas precisares…só tens de encontrar meia-dúzia de excelentes pedras para teres retornos excecionais em investimento!

 

 

Espero com este artigo ter-te oferecido alguma clareza quanto ao que se está a ver no segundo trimestre de 2020.

Para mim, podemos estar a entrar numa Bolha Financeira, auxiliada pelos Bancos Centrais e especuladores que nada sabem sobre ações e negócios. No entanto, pode haver algumas razões que justifiquem os preços que se estão a ver de momento. E pode haver oportunidades de investimento, para quem se dê ao trabalho de procurar com mais afinco.

Acima de tudo, importa manter a disciplina, o foco no longo prazo, investir em excelentes empresas a um preço razoável e manter sempre capital de lado, pronto para os saldos que possam surgir!

 

Mas gostaria de saber a tua opinião: achas que estamos a entrar numa Bolha? Achas que as ações estão caras? Ou achas que estão baratas? Diz-me aí nos comentários a tua opinião sobre a situação atual.

 

Saudações lucrativas,

Frederico Santarém

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