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Estratégia Halloween

 

O que é a estratégia Halloween?

É uma estratégia de Market Timing que afirma que os mercados acionistas têm um desempenho superior no período de 1 de novembro a 1 de maio, e que no período que se segue de 1 de maio a 1 de novembro as ações tendem a não valorizar tanto. Alguns afirmam que as ações valorizam mais nos meses de inverno do que nos meses de verão. Mas será mesmo assim?

 

Existe uma frase famosa no mundo dos investimentos que diz “Sell in May and go away, come again in St. Leger’s day” (nota: o dia de St. Leger é a 15 de setembro). Mais uma alusão à venda dos ativos financeiros na primavera para só voltar a preocupar-se com estes ativos no outono. Resultará?

 

Onde nasceu a estratégia Halloween?

Esta estratégia terá nascido no Reino Unido com as famílias mais abastadas de Londres que, em maio, viajavam para outras partes do país onde o clima era melhor. As famílias ricas queriam usufruir do verão noutras regiões mais quentes do país e, ao viajarem, deixavam para trás “esquecidos” os seus ativos financeiros.

Como ficava pouca gente para negociar os ativos financeiros, quer fosse para comprar ou para vender, então estes acabavam por ter performances inferiores; acabam por não valorizar tanto. Quando as famílias voltavam às suas residências Em Londres depois do dia de St. Leger, as negociações voltavam à normalidade e passava a haver muitas operações de compra e venda, pelo que os ativos tendiam a valorizar mais nos meses de inverno.

Atualmente, diz-se que brokers, negociadores, etc. também adotam este modo de vida, estando mais ativos nos meses de inverno e viajando mais nos meses de verão para regiões mais quentes. Ao quererem usufruir dos climas mais amenos, brokers e analistas financeiros acabam por diminuir a sua atividade em torno da negociação bolsista, pelo que as ações tendem a não subir tanto durante o verão.

 

Esta estratégia tem sido bastante debatida

Ainda não há total acordo entre os académicos do mundo financeiro e económico. Uns mostram que a estratégia resulta, outros afirmam que não passa de uma ilusão.

Por exemplo, Sven Bowman e Bem Jacobsen em 2002 estudaram o desempenho de índices de ações de 1970 até 1998 em 37 países diferentes da Europa, América do Norte, Ásia, África e, inclusive, da Austrália. Neste estudo mostraram que a estratégia parece ser válida sobretudo nos países europeus.

Figura 1. Artigo de Sven Bouman e Ben Jacobsen. Carrega na imagem para veres o estudo completo.

 

Mais tarde, em 2008, Bryan Lucey e Shelly Zhao voltam a debater o tema. Desta vez, em vez de estudarem o desempenho de índices acionistas, observaram o comportamento de ações individuais dos EUA de 1996 a 2002 (por isso, um período bem mais curto do que no anterior estudo e apenas num país). Verificaram que a estratégia prevalecia válida, mas atribuíram os resultados ao “efeito janeiro” – um efeito conhecido nos mercados acionistas, em que as ações tendem a disparar em janeiro porque em dezembro do ano anterior os investidores vendem os seus ativos, sobretudo para diminuir taxas e impostos a ser pagos e de supressão de menos-valias. Se em dezembro os investidores venderam os seus ativos e em janeiro voltam a comprar desenfreadamente, é natural que os ativos tendam a valorizar de forma acentuada.

Figura 2. Artigo de Brian M. Lucey e de Shelly Zhao. Carrega na imagem para veres o estudo completo.

 

Charles Jones e Leonard Lundstrum apresentaram um estudo em 2009 onde mostraram que o sucesso ou insucesso desta estratégia depende muito do período de anos escolhido para analisar o desempenho das ações. Concluíram que a estratégia até pode ser boa para diminuir as perdas em períodos de Bear Market (quando os mercados acionistas estão em queda), mas também diminuí substancialmente os ganhos durante períodos de Bull Market (quando os mercados acionistas estão em crescimento).

Figura 3. Artigo de Charles P. Jones e Leonard L. Lundstrum. Carrega na imagem para veres o estudo completo.

 

É curioso ver como os académicos não estão de acordo uns com os outros…

Hoje em dia, a profecia já se alimenta a si mesma. Por os investidores pensarem que devem vender em maio e voltar a comprar ações depois do Halloween, então naturalmente os mercados já reagem desta forma, valorizando mais nos meses de inverno do que nos meses de verão.

A estratégia também parece resultar na atualidade porque a generalidade das pessoas está mais ativa no inverno do que no verão. A maioria das pessoas vai de férias entre os meses de maio e outubro, e regressam às suas casas, às suas vidas de trabalho/escola nos meses de inverno. Então, a maioria das pessoas parece transacionar mais ações depois do Halloween.

Contudo…

 

Não fiques fora do mercado!

Por o desempenho das ações ser superior nos meses de inverno não quer dizer que se perca os ganhos no período do verão. Como vimos, muita gente adota esta estratégia, mas lá porque as ações valorizam 10% nos meses de inverno, não quer dizer que se perca a oportunidade de as ver valorizar 2% nos meses de verão.

Não se deve estar fora do mercado! Nunca!

Sabias que alguns dos maiores ganhos da história ocorreram precisamente nos meses de verão?

Por exemplo, depois do Bear Market de 1949 terminar a 13 de junho, o índice S&P500 (que reúne as ações das 500 empresas com maior capitalização bolsista dos EUA), valorizou 42.07% nos 12 meses seguintes.

O mesmo se pode dizer do Bear Market de 1962, que terminou a 26 de junho e onde o índice valorizou 32.66% nos 12 meses seguintes.

Ou do Bear Market de 1970, que terminou a 26 de maio e onde o índice valorizou 43.77% nos 12 meses seguintes.

Ou mais recentemente quando terminou o Bear Market de 2002, a 23 de julho, e onde o índice valorizou quase 18% nos 12 meses seguintes.

Ou ainda mais recentemente, após terminar um dos períodos mais negros que conhecemos da história económica recente, a Grande Recessão de 2007 a 2009, este índice valorizou quase 70% nos 12 meses seguintes.

Imagina a perda de oportunidade que foi estar fora do mercado em 2009, por exemplo. Um ano depois terias praticamente duplicado o valor das ações, se tivesses comprado ações durante esse verão, ao invés de te manteres afastado dos mercados.

Figura 4. O custo de ficar fora do mercado. Adaptado de “Money: Master the Game – de Tony Robbins”.

 

Observa um outro dado interessante e reflete porque é que deverias obrigar-te a manter investido nos mercados acionistas a todo o tempo, o que quer que aconteça no curto prazo.

Sabias que se tivesses investido no índice S&P500 de 1996 a 2015, sem entradas e saídas constantes, terias tido uma rentabilidade anual de cerca de 8.2%? Mas sabias também que se perdesses a oportunidade de estar investido durante os 10 dias em que as ações mais valorizaram nesses 20 anos isso te diminuiria a rentabilidade anual para 4.5%? É quase metade!

Pior…sabias que se estivesses fora dos mercados, se não tivesses o teu dinheiro investido, e perdesses os 20 dias em que o índice mais valorizou, então a tua rentabilidade anual cairia para 2.1%? E se estivesses fora os 30 dias em que o índice melhor performance teve, então a tua rentabilidade anual nestes 20 anos teria sido de 0.0%!!! Sim, leste bem, 0.0% em 20 anos!!! Só porque preferiste adotar estratégias transcendentes em vez de te manteres sempre investido.

Figura 5. A rentabilidade anual quando perdemos os dias com melhor desempenho. Repara o custo por se estar fora do mercado nos melhores dias de negociação. Adaptado de “Money: Master the Game – Tony Robbins”. Carrega na imagem para acederes a uma versão mais recente deste estudo da Schwab Corporation.

 

A acrescentar a tudo isto estão os custos relacionados com as transações. Tu pagas comissões sobre as compras e vendas de ações, tu pagas taxas e impostos sobre as mais-valias que obténs sobre essas operações. Por isso, um investidor que opere muito e que adote esta estratégia de comprar em novembro e vender em maio continuamente, vai pagar muitas comissões e impostos e, assim diminuir substancialmente os ganhos que poderia obter. Ao operares muitas vezes estás a engordar é a carteira dos bancos e corretoras, não a tua carteira!! Compra e vende menos vezes e verás a diferença na rentabilidade das tuas poupanças.

 

Já estás a ver que há um custo muito grande para quem fica de fora do mercado. Enquanto uns adotam estratégias duvidosas, outros lucram enormemente…

Como diria Benjamin Graham, pai do Investimento em Valor (de que falarei noutro artigo), “o pior inimigo do investidor é ele mesmo”. Uma afirmação forte, e comprovada nesta situação em que um investidor decide adotar a estratégia Halloween em vez de estar permanentemente investido.

 

Já sabes, para aprenderes mais sobre como rentabilizar as tuas poupanças mais de 10% ao ano com investimentos a longo prazo em ações subscreve a lista de e-mails. Apresentarei conteúdos exclusivos para subscritores.

 

Saudações lucrativas e desejos de um excelente Halloween!

Frederico Santarém