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A 2 de maio de 2020 realizou-se mais uma Conferência Anual de Acionistas da Berkshire Hathaway.

Neste artigo apresento-te um resumo dos principais pontos abordados ao longo desta sessão. Foram mais de quatro horas de enorme valor passadas com Warren Buffett e aqui apresento-te aqueles que (para mim) foram os tópicos mais interessantes. Organizei a informação por 9 pontos, para que os possas absorver melhor:

 

  • O que é a Conferência Anual da Berkshire Hathaway?
  • Atividades e lucros da empresa
  • Os saldos no mercado
  • A importância de ter dinheiro de lado
  • Recompra de ações próprias
  • Market Timing
  • Longo Prazo
  • Psicologia do investidor
  • Ações são o melhor ativo

 

O artigo é longo, mas acredito sinceramente que te vai ser extremamente útil. Lê até ao final e vais ver que não te vais arrepender. Eu aprendi muito em quase 5 horas com o Warren Buffett, e acredito que tu poderás aprender bastante nestes próximos 17 minutos (tempo estimado).

 

 

1. Introdução: o que é a Conferência Anual da Berkshire Hathaway?

Este é o evento anual mais aguardado pelos investidores de todo o mundo, pois é uma oportunidade de ver e de aprender com Warren Buffett e Charlie Munger.

Este evento costuma reunir perto de 18.000 investidores que vêm dos quatro cantos do mundo para ouvir estes dois super-investidores. Warren, com 89 anos de idade, e Charlie, com 95, continuam a ter uma energia invejável e presenteiam os investidores com uma quantidade de informação tremendamente útil que ninguém quer perder!

Em 2020, porém, o formato da Conferência foi diferente. O Grande Confinamento obrigou a medidas extra de proteção e este ano não foi possível reunir tantos investidores no mesmo espaço. Charlie Munger também preferiu isolar-se em casa, pois embora esteja de boa saúde, não quis colocar a sua preciosa vida em risco.

Até 2019 vimos Warren e Charlie lado a lado a falar das estratégias simples que resultam em investimentos. Em 2020, porém, vimos Greg Abel (o chairman e CEO da subsidiária Berkshire Hathaway Energy) a substituir Charlie Munger no palco. Senti falta do humor de Charlie Munger, mas foi bom ver outros diretores da Berkshire a participar na sessão de perguntas e respostas.

 

1.1. A Berkshire Hathaway

A Berkshire Hathaway é a empresa do Warren Buffett. É uma das maiores empresas do mundo (medida pela capitalização bolsista), valendo atualmente mais de 400 biliões de dólares em Bolsa.

Detém negócios em vários setores, que vão da energia aos seguros, passando pela manufatura, serviços de utilidade pública, restauração, imobiliário, distribuição, entre outros. Detém ainda um portefólio diversificado de participações noutros negócios de forma parcial – a maior posição é a Apple, que ocupa cerca de 25% da sua carteira de investimento em ações.

A Berkshire Hathaway era, até 1965, uma empresa têxtil, prestes a falir. Warren comprou-a no auge das falências na indústria têxtil americana. Atualmente considera que este foi o pior investimento que fez até hoje e que lhe custou uma fortuna. Contudo, transformou uma empresa condenada num império de mais de 400 biliões de dólares.

 

 

2. Atividades e lucros da Berkshire

Os lucros operacionais da Berkshire – que o Warren insiste em afirmar que são a melhor forma de ver o desempenho de uma empresa, e não EBITDA ou outras métricas regidas por regras contabilísticas dúbias – aumentaram de $5.555 biliões (no 1º trimestre de 2019) para $5.871 biliões (no 1º trimestre de 2020). Os lucros operacionais aumentaram por causa dos dividendos recebidos de todos os negócios em que a Berkshire tem participação (total ou parcial). Como estes dividendos têm aumentado de ano para ano, os lucros operacionais da Berkshire tendem a aumentar também. As perdas em investimentos em ações foi de $54.517 biliões, contra um ganho de $15.498 biliões em igual período do ano anterior.

Até março, muitos dos negócios da Berkshire apresentaram crescimento face ao mesmo período do ano anterior. Contudo, em abril, muitos dos negócios ligados aos setores da energia, serviços de utilidade pública e seguros foram fortemente impactados pelas medidas impostas pelo governo durante o Grande Confinamento, que obrigaram ao fecho temporário de muitas unidades de operação. Warren percebe que a saúde e a economia estão interligadas e influenciam-se uma à outra, mas quis ser conservador e aumentar a posição de cash (dinheiro), ao invés de ir à procura de pechinchas no mercado. Estes negócios exigem muito capital para operarem e necessitaram de uma liquidez em abril de 2020 como nunca haviam necessitado. Com a economia completamente parada, como nunca aconteceu na nossa História Moderna, o dinheiro é rei e a Berkshire está preparada para todos os cenários. Contudo, estes negócios continuaram a operar e as vendas (revenues) do grupo aumentaram face ao ano anterior: $61.3 biliões em 2020 contra $60.7 biliões em 2019 [ver numero].

Warren afirmou que foram cometidos erros e que isso afetou a lucratividade da Berkshire no curto prazo (ver secção 3.1 Investimentos na Aviação – quando não segues os teus próprios conselhos).

Algumas das subsidiárias da Berkshire afetadas por esta crise poderão sofrer ajustamentos no curto prazo como redução de salários temporários, mas Warren reconheceu que ao longo do tempo a Berkshire vai adicionar cada vez mais empregos e ser um contribuidor para a geração de riqueza entre as famílias americanas. Disse ainda que alguns dos negócios poderão não reabrir, pois já estavam a sofrer antes da Pandemia e agora foram severamente afetados. Deu como exemplo negócios ligados aos jornais e negócios que prestam serviços para restaurantes e que agora não são necessários.

 

A Berkshire não vai financiar as suas subsidiárias, porque elas não precisam. Warren afirmou que os seus gestores sabem gerir as suas empresas de forma conservadora e têm balanços sólidos que lhes permitem fazer face a adversidades. Contudo, algumas subsidiárias ligadas aos setores da energia e dos seguros sofreram momentaneamente com o Grande Confinamento, pelo que foi necessário algum financiamento por parte da Berkshire. No entanto, Warren diz que não financia empresas em que pensa vir a perder dinheiro nos próximos tempos. Fê-lo com a Berkshire em 1965 e evitou repeti-lo daí para a frente. Diz ainda que quando esta situação acontece, prefere procurar alguém mais competente no mercado para recuperar o negócio e comprá-lo.

 

Foi ainda assegurado que a cultura da Berkshire não se vai alterar quando o Warren e o Charlie saírem do “trono”. Greg Abel, Todd Combs e Ajit Jain (três gestores de topo) têm a cultura da Berkshire bem incorporada e vão ser bons sucessores na gestão de operações.

Também quando um cibernauta perguntou se a Berkshire continuaria a apresentar uma performance inferior ao mercado, Warren respondeu que nos últimos 54 anos houve muitos períodos em que a empresa teve performances inferiores aos principais índices. No entanto, a longo prazo, apresentou uma rentabilidade muito superior e acredita que no futuro isso será novamente possível de alcançar, dado que a Berkshire opera com um perfil muito diferente da maioria das empresas. Disse não conseguir prometer que bateria o índice consistentemente, como tantos gestores na indústria financeira assim o prometem (e falham consistentemente), mas que pode prometer que se preocupa com o que acontece com a Berkshire e com o que acontece às poupanças das famílias que têm 99% das suas fortunas na Berkshire.

 

 

3. Saldos nos mercados acionistas

As pechinchas foram poucas para a Berkshire e só estiveram disponíveis num curto período de tempo em março de 2020. Charlie Munger já tinha comentado antes que o telefone do Warren não estava a tocar como tocou em 2008/2009, quando a Grande Recessão atirou muitas empresas para a bancarrota e muitas delas correram à procura de injeção de capital da Berkshire. Um investidor chegou a perguntar porque é que a Berkshire não estava a ajudar tantas empresas agora como o fez em 2008, ao que Warren disse que o banco central americano (a FED) agiu muito rapidamente para ajudar as empresas. Em 2008 a Berkshire comprou muitas empresas porque os mercados estavam extremamente baratos e atrativos; algo que não viram acontecer no início de 2020. A rápida ação da FED retirou a atratividade do mercado.

Só em abril, a Berkshire vendeu posições no valor de $6.5 biliões, enquanto que comprou posições apenas no valor de $1.7 biliões ao longo do primeiro trimestre de 2020. Warren disse que venderam posições deste valor não porque achavam que o mercado ia cair, mas porque assumiram o erro de análise nas companhias aéreas e quis corrigir o erro rapidamente.

 

3.1. Investimentos na Aviação – quando não segues os teus próprios conselhos

A Berkshire vendeu a totalidade das posições que detinha na American Airlines, Delta Airlines, United Airlines e na Southwest Airlines (confirmar nomes). Detinha cerca de 10% de cada uma destas companhias. Vendeu com uma pesada perda; lembrando-nos que por vezes é preferível reconhecer o erro e assumir perdas, do que manter posições que podem acabar a valer ZERO!

Disse não estar desapontado com a gestão das empresas ou os seus gestores, mas que o mundo mudou para a indústria e não sabe ainda como; só sabe que mudou.

Warren afirmou que as companhias aéreas que compraram em 2016 (e que reforçaram em 2020) têm gestores fantásticos numa indústria extremamente difícil e competitiva. Disse ainda que a indústria mudou drasticamente e que o futuro da aviação é agora muito menos claro para ele. Outras empresas relacionadas como setor, como a Boeing ou a General Electric, sofrerão no curto prazo, pois têm exposição elevada a um setor que não está a comprar novos ativos.

Os lucros operacionais da Berkshire serão afetados no curto prazo pela participação nas companhias aéreas. Contudo, a Berkshire não sairá tão afetada pelo investimento na aviação como as próprias companhias aéreas porque detém muitos mais ativos que contrabalançam estas perdas. Uma lembrança da importância de ter um portefólio bem diversificado. Em nota adicional a este tema da diversificação, Warren disse que seria má ideia colocar 100% do seu dinheiro numa empresa, por muito boas que as perspetivas se apresentassem. Imprevisibilidades podem acontecer e lá se vai todo o nosso dinheiro.

Warren diz ter cometido um erro de análise das companhias aéreas e que o mundo mudou completamente para o negócio. Para mim, o erro dele foi outro: o de não seguir os seus próprios conselhos! Warren afirma constantemente que não deves investir no que não entendes. Afirmou ao longo de décadas que não investia nas companhias aéreas porque não entendia o seu negócio. Mas em 2016 arriscou-se nestes investimentos e chegou a deter 10% das quatro maiores companhias aéreas dos EUA; um erro que lhe custou demasiado caro. Moral da História: Vale a pena seguirmos os nossos próprios conselhos!!!

É preciso compreender ainda que com os resgates às companhias aéreas nos moldes atuais, os dividendos vão ser eliminados (para a Berkshire os dividendos são muito importantes porque ajudam a aumentar os lucros operacionais da empresa – ver ponto 2. Atividades e lucros da Berkshire) e Warren pagou um preço pelas companhias em 2016 mais elevado do que aquele a que se encontram em 2020.

 

3.2. Investimentos em negócios do Petróleo

Houve algumas perguntas relacionadas com aquisições recentes de negócios na área da energia (petróleo). Warren disse que quando se compra empresas de petróleo, fica-se muito dependente dos preços da própria matéria-prima (o petróleo). Quando a Berkshire fez negócio com a Occidental Petroleum o preço do petróleo não estava a $20 (e tampouco poderiam pensar que atingiria -$37), um preço que não resulta. A demanda por petróleo está em mínimos históricos e torna-se inviável para as empresas que têm de extrair petróleo operarem eficientemente. Há riscos de perda permanente de capital em investimentos em empresas de petróleo. Alguns bancos com exposição ao setor também poderão vir a ser afetados no curto prazo, mas o risco está muito mais diluído, pois detêm outros investimentos fora da esfera do petróleo. Mas quando se compra uma empresa de petróleo, está-se a apostar no preço da matéria-prima a muito longo prazo, o que por si só representa um risco de perda permanente de capital.

 

 

4. A importância de ter dinheiro de lado

A Berkshire aumentou a sua posição de dinheiro e equivalentes de $128 biliões para $137 biliões, enquanto que as pessoas pensavam que teria andado à caça de pechinchas durante o mini Bear Market do ínicio de 2020.

Deste valor, $19 biliões representam dinheiro (cash) disponível no imediato (cash é o mesmo que tu teres notas no bolso). $114 biliões estão colocados em Bilhetes do Tesouro dos EUA. Apesar de que Warren reconhece que a longo prazo as obrigações estatais (os bilhetes de tesouro) são um péssimo investimento e perdem valor para a inflação, ele prefere operar numa posição conservadora e forte. Tem dito ao longo dos anos (e voltou a afirmar este ano) que manterá sempre uma percentagem do valor da empresa em dinheiro ou equivalentes para fazer face a qualquer circunstância que apareça no mercado, seja uma pandemia, um outro 11 de setembro que feche o mercado acionista, ou outro evento qualquer. Ao ter dinheiro de lado, estará preparado para qualquer circunstância. Lê bem estas últimas palavras: preparar-se para qualquer circunstância! É por isso que é tão importante teres um Fundo de Emergência, que te ajude a superar qualquer obstáculo que te apareça.

 

 

5. Recompra de ações próprias

A compra de ações próprias também diminuiu no primeiro trimestre de 2020 em relação ao quarto trimestre de 2019: foram $1.7 biliões contra $2.2 biliões, respetivamente. A este respeito um investidor perguntou porque não houve recompras em março quando o preço das ações era menor, mas houve em janeiro a preços maiores. Warren respondeu que não considerava que os preços apresentassem um desconto diferente daquele apresentado em janeiro, que as ações da Berkshire não estavam tão mais atrativas do que estavam em janeiro. Warren admitiu que a Berkshire valia agora menos do que há um ano, por erros que lhe deviam ser imputados a ele, tal como os investimentos nas empresas de aviação que causaram avultadas perdas para os seus acionistas.

 

A recompra de ações tem sido criticada por alguns órgãos governamentais, que consideram esta uma má política. Warren disse que recomprar ações próprias é uma forma de distribuir dinheiro pelos acionistas de uma empresa, tal como o são os dividendos. Mesmo numa pequena empresa, em que um grupo de amigos se tenham juntado e tenham iniciado um negócio com 100.000€ iniciais cada um (a título de exemplo), eles poderão distribuir os lucros que a empresa vai gerando de forma diferente. Uns optarão por reinvestir a totalidade dos lucros no crescimento da empresa, enquanto que outros preferirão recolher os lucros anualmente (dividendos). A recompra de ações próprias é uma forma de reinvestir no crescimento da empresa.

Agora, é necessário ter atenção aos gestores de empresas que usam a recompra de ações como um método de engenharia financeira. Recomprar ações não deverá ser feito a qualquer preço, mas sim feito após uma análise cuidada e abaixo do valor intrínseco dessas ações. Warren condena os gestores que ano após ano recompram mais e mais ações, só para inflacionar os resultados contabilísticos e fazer disparar o preço das ações. Diz que não é imoral fazer esta engenharia financeira, mas é estúpido fazê-lo! A única coisa que faz sentido para aumentar o valor para os acionistas é recomprar ações abaixo do seu valor intrínseco. Muitas das empresas que a Berkshire detém, adotam uma política conservadora de recompra de ações, indo ao mercado quando o preço destas está bem abaixo do valor intrínseco do negócio.

 

 

6. Adivinhar a direção do mercado no curto prazo (ou o Market Timing)

Warren afirma constantemente que não sabe o que o mercado vai fazer no curto prazo. É muito difícil pensar em coisas que ainda não aconteceram, pensar em coisas completamente imprevisíveis. Mas há sempre coisas que nos podem surpreender (como esta pandemia). Em 1914 o mercado esteve fechado 4 meses. No 11 de setembro o mercado fechou por 4 dias. A 19 outubro de 1987 o índice Dow Jones perdeu 22% do seu valor num só dia!!! No curto prazo tudo pode acontecer, até uma pandemia que paralisa a economia global!

Warren disse: “não sabemos o que vai acontecer à economia quando se fecha parte da sociedade. Em 2008 nós travámos o comboio que seguia a todo o vapor; agora nós tirámo-lo da linha e aparcámo-lo temporariamente. Isto nunca aconteceu antes e nós não sabemos quais serão os efeitos sentidos. Isto é uma experiência para a qual não sabemos a resposta e há muitas possibilidades no horizonte.”

E afirmou também: “eu não sei o que o mercado vai fazer amanhã, ou na próxima semana, ou no próximo mês, ou sequer no próximo ano. O que sei é que a economia dos EUA continuará a prosperar. Pensava desta maneira durante a 2ª Guerra Mundial, pensei assim na Crise de Cuba, durante o 11 de setembro e durante a Grande Recessão de 2008-2009, e continuo a pensar exatamente o mesmo. Contudo, atenção à maneira como vais apostar a favor da América – não vais querer alavancar os teus investimentos e pensar só nos cenários mais otimistas; equaciona sempre os cenários mais negativos, para não teres surpresas desagradáveis.”

 

A propósito disto, Warren deu uma lição de História sobre os EUA muito interessante, que mostrou a prosperidade do país e a forma como a democracia e o capitalismo funcionam, ainda que apresentem falhas que têm de ser corrigidas. Em 1790 os EUA estavam a “nascer” como país e habitavam ali 3.9 milhões de pessoas (600 mil dos quais eram ainda escravos). Ninguém poderia prever nesta altura que, 231 anos depois, teríamos aviões, comboios, hospitais e um nível de entretenimento como temos em 2020. A riqueza do país em 1790 era de apenas 1 bilião de dólares; algo que cresceu para mais de 100 triliões de dólares em 2020. As coisas melhoraram muito para as pessoas que estão no extremo mais pobre da sociedade. Ainda que haja imperfeições a corrigir, a sociedade vive hoje muito melhor do que há 100 anos.

Este crescimento e prosperidade não se fez sem alguns percalços no caminho. O país já enfrentou várias guerras (incluindo duas Mundiais), várias crises económicas e financeiras, vários ataques terroristas e até várias epidemias que abalaram a saúde dos americanos. Contudo, houve sempre quem duvidasse desta prosperidade: em 1863 o próprio presidente dos EUA, Gettysburg, dizia “…testando se esta nação, ou qualquer outra nação, podem perdurar”, aquando da Guerra Civil que abalava o país. Em 1861 havia 10 milhões de homens americanos entre os 18 e os 60 anos de idade. Cerca de 6% deste grupo morreu na Guerra Civil (1861-1865). Demorou 131 anos para as mulheres poderem votar nos líderes americanos. Demorou ainda mais 61 anos depois disso para as mulheres se poderem juntar a 8 homens no Supremo Tribunal dos EUA. Em 1776 realizou-se um censo para libertar escravos, mas em 1790 15% da população continuava escravizada. Demorou ainda um par de anos a abolir completamente a escravatura.

Ainda assim, quando olhamos para o progresso da América, percebemos o significado de “American Dream”

 

Quando vemos a evolução dos principais índices, também percebemos a prosperidade dos EUA a longo prazo. O Dow Jones fechou nos 381.17 pontos a 3 de setembro de 1929, quando os EUA tinham 140 anos e a aviação começava a dar os primeiros passos e toda a gente estava exuberante com a evolução tecnológica do país. A 13 de novembro desse ano o Dow Jones já tinha perdido 48% do seu valor. A 29 de agosto de 1930, um dia antes do Warren Buffett nascer, o Dow Jones fechou a 240.42, um crescimento de 20% desde os mínimos de 1929, quando ainda não era aparente que se dirigiam para uma Grande Depressão de consequências nefastas para a economia e para a sociedade. O índice viria a atingir 41.22 a 8 de julho de 1932, uma queda de 83% no período de 3 anos. O pai de Warren Buffett, que vendia ações e obrigações para um banco americano, foi despedido durante a Grande Depressão, deixando a mulher e dois filhos extremamente vulneráveis às circunstâncias da altura. Contudo, a economia iria retomar e o índice Dow Jones iria recuperar o valor perdido a seu tempo. Isso aconteceu em 4 de janeiro de 1951, quando o índice fechou nos 240.85 pontos. As pessoas nos anos 30 não sabiam como iam sair da Grande Depressão, mas a perseverança fez com que o país continuasse a prosperar nas décadas seguintes. Atualmente, o Dow Jones está acima dos 24.000 pontos – quem poderia pensar nesta realidade há 80 anos atrás?

 

Em 2008/2009 os bancos centrais agiram relativamente rápido para conter os estragos da altura. Em 2020 agiram ainda mais rápido e conseguiram segurar o barco. Não se sabe as consequências que terão estas ações dos bancos centrais: a compra de ativos, redução de taxas de juro para zero ou terreno negativo (na Europa), compra de obrigações, etc. Mas sabe-se que as consequências de não ter feito rigorosamente nada seriam muito piores.

 

 

7. A importância de adotar uma postura de longo prazo – e mantê-la!!!

Warren tem 99% da sua fortuna pessoal associada à Berkshire. Não há dúvidas de que pratica os princípios de investimento a longo prazo. Detém uma posição muito considerável num investimento há mais de 50 anos!

Warren voltou a frisar que ter ações é deter uma participação num negócio. E tal como quando compramos uma quinta não gostamos que um vizinho esteja constantemente a chatear-nos a oferecer um preço diferente pela quinta a cada dia que passa, também não deveríamos olhar para as ações (ou os negócios que elas representam) dessa forma. Não faz sentido comprarmos uma quinta por 100.000€ e o vizinho vir amanhã oferecer-nos 80.000€, nós dizemos que não; no dia seguinte vem oferecer 120.000€, nós dizemos que não; no outro dia a seguir oferece 110.000€, nós dizemos que não; a seguir oferece 90.000€, nós dizemos que não. Este vizinho é um tolo, a gritar-nos preços diferentes pela nossa quinta todos os dias. O mesmo acontece em matéria de ações: todos os dias estão milhares de pessoas a gritar-nos o preço de um negócio; nós temos de ter pensamento crítico e perceber o real preço do negócio. As pessoas tornam uma enorme vantagem (a de investir em ações) numa desvantagem quando estão diariamente a ver o preço de um negócio (e das suas ações) a variar num ecrã.

Warren chegou mesmo a afirmar: “as pessoas trazem uma opinião minuto-a-minuto acerca das ações, porque são líquidas e o preço está sempre disponível. Isto é uma estupidez e Bem Graham ensinou-me em 1945 que ações são parte de negócios e que o mercado não está aqui para me instruir, mas para me servir (quando oferece oportunidades criadas pela estupidez dos outros)”. Durante a pandemia houve imensa gente a vender ações, com medo do que possa acontecer no curto prazo, tornando uma vantagem numa desvantagem. Se tu gostavas de um negócio antes da pandemia e o seu preço caiu, então tens uma enorme vantagem em deter as suas ações.

Por fim, não adianta dizer às pessoas para adotarem uma postura de longo prazo e depois só deter as ações por meia dúzia de meses ou vendê-las passados dois anos. Isto, para mim, também é vender a banha da cobra.

 

 

8. A psicologia do investidor

Warren refere constantemente que um dos maiores inimigos do investidor é a sua psicologia. Já Benjamin Graham o dizia nos anos 40. E nesta Conferência Warren voltou a referir isto.

Warren afirma que uma das maiores desvantagens do investidor comum é não estar psicologicamente preparado para deter fatias de negócios para o longo prazo e querer ser um “jogador de curto prazo” ou um “apostador de casino” que só quer duplicar o seu dinheiro rapidamente.

Voltou a frisar que a maioria das pessoas estará mais bem servida ao deter um ETF do índice S&P500, pois assim estará a deter um pouco de todos os setores cruciais da América e evita vieses comportamentais nefastos para a saúde do investidor.

 

Na Berkshire eles tentam sempre comprar negócios que entendem. Dizem não comprar todos os negócios que constituem o SP500 porque não compreendem todos. Eu também adoto a mesma filosofia nos Investimentos Lucrativos. Há negócios que não consigo entender e prefiro mantê-los longe. Warren diz repetidamente que gostava de ver as pessoas a comprar ações como parte de negócios e não como papéis que podem ser trocados numa base diária. Mas apesar do maior investidor do mundo dizer isto repetidamente, as pessoas não seguem este conselho; é muito humano ser-se especulador e pensar-se apenas no curto prazo – é um dos nossos maiores vieses comportamentais, extremamente difícil de combater (mas necessário para se ser bem-sucedido em investimento).

 

 

9. Ações são o melhor ativo que se pode ter

As ações, ao serem parte de um negócio, oferecem melhor proteção contra a inflação (que os bancos centrais querem em torno dos 2%) do que as obrigações. Principalmente numa altura em que as taxas de juro estão próximas de zero: as obrigações não rendem nada; pedir dinheiro emprestado sai barato às empresas; o custo do dinheiro é menor; e o crescimento das empresas é maior, aumentando a rentabilidade das ações.

Warren chegou a dizer: “se apostares na América e detiveres as ações por muitas décadas, posso-te garantir que ficarás melhor do que as pessoas que detêm obrigações e do que aquelas que te estão sempre a gritar o preço das ações”.

Mesmo quando um investidor lhe perguntou porque estava Warren a recomendar comprar ações quando ele próprio não o estava a fazer no primeiro trimestre de 2020, Warren afirmou não recomendar comprar ações hoje ou amanhã; mas sim comprar com a mentalidade de manter participações no negócio por longos períodos, mesmo que o preço das ações caia 50% ou mais.

Disse ainda que há uma vantagem tremenda em operar com pouco dinheiro. Ao passo que em 2020 ele não encontra oportunidades atrativas na esfera em que trabalha (a esfera dos biliões), esse problema não existia quando operava com poucos milhares ou milhões. Nessa altura, era muito mais fácil encontrar oportunidades atrativas. Uma pequena luz para nós, pequenos investidores que não operamos com biliões, que mesmo quando o guru não encontra oportunidades no mercado, nós podemos encontrá-las. É preciso apenas saber onde procurá-las.

 

No entanto, Warren deixa um aviso às pessoas: que tenham cuidado com os vendedores de sonhos! A indústria financeira está repleta de pessoas que prometem performances superiores ao mercado. Há gestores a cobrar quantias extremas aos seus clientes por maus conselhos, quando as pessoas estariam mais bem servidas com um ETF que replicasse o desempenho das 500 maiores empresas norte-americanas (S&P500). E não pagariam tanto por isso! Paga-se um preço elevado por maus conselhos nesta indústria. Aliás, a indústria financeira beneficia, recorrentemente, não quem tem boas rentabilidades, mas sim quem é bom vendedor; ou seja, quem tem capacidade de cobrar grandes fortunas por maus conselhos.

 

 

Este foi um resumo das principais ideias da Conferência Anual da Berkshire Hathaway.

O que achaste? Foram úteis? Há algo que não tenhas percebido tão bem? Ou há algo que o Warren disse e que tu não concordas? Diz-me aí nos comentários qual é a tua opinião.

 

Saudações lucrativas,

Frederico Santarém