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Em investimento, uma das coisas mais importante é a diversificação.

Há uma velha máxima da agricultura que diz “nunca coloques todos os ovos no mesmo cesto”, que lembra que o cesto pode cair ao chão e partir todos os ovos que lá transportavas. Se colocares os ovos por vários cestos e um deles cair (e os ovos que estavam lá dentro partirem) tens mais cestos com mais ovos.

O mesmo se aplica ao mundo dos investimentos. Carteiras bem diversificadas são ganhadoras, porque diminuem o risco de perdas quando um “cesto” de ações está a cair.

 

Num dado momento da história, e por vários motivos, a ação da empresa A ou da empresa B podem ir a 0, fazendo-te perder a totalidade do investimento inicial.

Se tinhas todas as tuas poupanças naquelas ações, então perdeste tudo. E não queres isso, de certeza!

Queres que o teu dinheiro esteja investido em várias ações diferentes, para se algo correr mal com um grupo delas, teres outras ações com bons desempenhos que sustentem o teu portefólio a longo prazo.

 

Já te consigo ouvir a perguntar: “Então como posso diversificar a minha carteira de ações?”

É uma excelente pergunta e neste artigo pretendo responder a essa dúvida.

 

1. Diversificação por geografias

Em primeiro lugar interessa procurar diversificar a nossa carteira por diferentes geografias.

Um dos maiores erros dos investidores iniciados é investirem somente em empresas do seu país (o chamado “home bias” ou “viés-da-própria-casa”). Ou investirem em ações de empresas de um só país (por exemplo, só empresas francesas).

É importante que detenhas em carteira ações de empresas de vários países, porque isso oferece-te exposição a vários mercados, a várias economias, a várias moedas.

As operações económicas dos países da América do Norte não são iguais às dos países europeus ou asiáticos.

A exposição a diferentes moedas (Euro; Dólar; Iene; Libra; etc.) é importante, pois há flutuações ao longo do tempo que te podem ser vantajosas. E pensa que, por exemplo, se tens um emprego em Portugal, então já recebes um salário em euros, o mais provável é que pagues as tuas contas em euros e que já estejas com uma grande exposição à realidade económica do país. Por isso é importante procurar sair deste cenário de 100% de exposição a um só país.

Claro que num mundo cada vez mais global, há empresas que apesar de terem a sua sede, por exemplo, nos EUA, têm atuação no mundo todo. São empresas verdadeiramente globais. Por exemplo, a Google ou a Amazon têm vendas em todo o mundo. Mas como estão cotadas nas Bolsas dos EUA, ao investires nestas empresas estás a expor-te ao dólar e ao mercado americano, o que é ótimo.

 

2. Diversificação por setores

Depois deverás considerar ter exposição a diferentes setores da economia.

Um erro comum dos investidores iniciantes é pensar que o número de ações que detêm em carteira dita a diversificação. Se todas elas estiverem ligadas ao mesmo setor, então estamos a pedir problemas. De nada vale termos 20 ações no portefólio se estão todas ligadas ao setor da tecnologia.

É importante ter em carteira ações dos vários setores:

  • Tecnologia
  • Biotecnologia
  • Banca
  • Retalho
  • Energia
  • Farmacêuticas
  • Automóvel
  • Industriais
  • Construção
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Uma correta diversificação por vários setores protege-te de eventualidades que possam ocorrer nos mercados que não controlas. Por exemplo, num dado ano as ações da banca podem desvalorizar 30% porque as taxas de juro diminuíram e os lucros dos bancos podem ser menores, enquanto que as ações de farmacêuticas podem valorizar 40% no mesmo ano porque estão todas a tentar descobrir a vacina X para a doença Y. São fatores que não controlas, e o melhor é ter um portefólio com exposição a vários setores. Isto oferece-te uma proteção crucial.

 

3. Diversificação por tipos de players

Há vários tipos de players a considerar.

 

Em primeiro lugar é importante considerar ter no portefólio ações de empresas de grande, pequena e média dimensão.

Esta dimensão é medida normalmente pela capitalização bolsista da empresa. A capitalização bolsista é o que a empresa vale no mercado; o que os investidores pensam que ela vale num dado momento

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Empresas de grande dimensão têm uma capitalização bolsista elevada. Normalmente considera-se que uma empresa que esteja a cotar no mercado a mais de 10 biliões de dólares ou euros é uma empresa de grande capitalização bolsitas (chamada de Large Cap). Normalmente são empresas já muito bem estabelecidas no mercado, que vendem produtos ou serviços recorrentes que toda a gente precisa, e que dificilmente deixam de vender até durante as crises. Normalmente as suas ações flutuam menos e tendem a valorizar pouco, pois já são tão grandes que é difícil crescerem ainda mais.

Por oposição, as empresas de pequena capitalização bolsista consideram-se aquelas que têm um valor de mercado inferior a 1 bilião de euros ou dólares. Normalmente são empresas que apresentam uma elevada oportunidade de valorização (atenção que dizer que “podem valorizar” não é o mesmo que dizer “vão valorizar”). É natural que uma empresa pequena se possa tornar média, depois grande, depois gigante. É mais fácil uma empresa de 100 milhões de euros valorizar até aos 10 biliões de euros do que uma empresa de 100 biliões chegar aos 500 biliões (no entanto, em Bolsa, tudo pode acontecer; nunca te esqueças disso). As flutuações do preço da ação podem ser maiores nestas empresas, pelo que não te admires se vires uma ação a descer 40% no curto prazo, mas a subir 2,000% em 10 anos.

Existem também as empresas de média capitalização bolsista, que se consideram algures entre os 1 bilião de euros ou dólares e os 10 biliões de euros ou dólares.

 

Vimos vários tipos de players: grande, média e pequena capitalização bolsista. Mas há outros tipos de players. Vamos considerar as ações de empresas muito defensivas e as ações cíclicas.

 

empresas que são muito defensivas e que poderás considerar para o teu portefólio. Ações de empresas ligadas ao setor do retalho de bens essenciais são muito defensivas porque, quer a economia esteja num período crescente, quer a economia esteja em recessão, tu precisas de comer.

A comida é um bem essencial, sem o qual as pessoas não sobrevivem. Tu precisas de estar sempre a comer, quer a economia esteja em recessão ou não. E por isso estas empresas tendem a ser muito defensivas. Empresas que controlem supermercados ou estejam ligadas à produção de artigos alimentares caem nesta categoria.

Normalmente, as ações destas empresas muito defensivas tendem a flutuar pouco, e por isso podes contar com descidas menos expressivas durante um Bear Market, quando comparadas com outras players.

Uma outra categoria de ações muito defensivas são as empresas ligadas ao setor farmacêutico. Se tiveres doente precisas de comprar um medicamento X para curar a doença Y, quer a economia esteja num período de crescimento, quer a economia esteja em recessão. Ações destas empresas poderão ter variações mais expressivas na sua cotação, mas não deixam de ser empresas defensivas, pois vendem produtos recorrentes com elevada (e constante) procura.

 

Bem diferentes destas últimas, são as empresas cíclicas. As empresas cíclicas tendem a apresentar maiores vendas quando a economia está numa fase de crescimento, e a apresentar piores vendas (ou, por vezes, prejuízos) quando a economia entra em recessão.

Por exemplo, o setor automóvel é cíclico. Naturalmente, quando a economia está em crescimento, as empresas estão a vender bem, a população está com rendimentos crescestes, o desemprego está a baixar, e há maior consumo, as pessoas tendem a comprar mais automóveis novos. Porém, quando a economia começa a desacelerar ou até a entrar em recessão, as empresas vendem menos, os níveis de desemprego crescem, há menos rendimentos entre as famílias e menor consumo, e as pessoas tendem a considerar o automóvel novo um bem de terceira ou quarta necessidade, fazendo com que as vendas caiam a pique.

As ações das empresas cíclicas tendem a oscilar bastante ao longo do tempo. Diz-se até que antecipam o ciclo económico nos próximos tempos, pois estas ações tendem a descer muito quando vamos entrar em recessão, e a subir muito quando vamos entrar num novo período de crescimento.

Ter sucesso com as ações cíclicas depende muito do timing com que se compra ou vende. Tendem a ser boas oportunidades de compra quando as empresas associadas à ação apresentam fortes prejuízos e vêm as suas ações a cair 50%, 60% ou mais. E tendem a ser boas oportunidades de venda quando o crescimento económico já vai longo e as empresas estão a reportar lucros crescentes.

Parece contraintuitivo, mas as cíclicas são mesmo assim! Por isso é necessária maior atenção para investir em empresas cíclicas. Há quem diga “nas cíclicas, o timing é TUDO!”, e eu tendo a concordar com esta afirmação, mesmo não gostando da ideia de fazer market timing. Por isso, muita atenção a estas empresas, poderão ser consideradas mais para o médio prazo do que para o longo prazo.

 

4. Diversificação temporal

Por último, quero-te dizer que a diversificação se faz ao longo do tempo.

Se tens 100€ (ou 1000€ ou 10,000€ ou qualquer outra quantia) iniciais, não queiras repartir imediatamente o teu valor inicial por 50 empresas diferentes. Isto não se faz assim!

É importante que vás diversificando a carteira, sim, mas ao longo do tempo! Existirão períodos em que um dado setor estará a cotar a preços mais baixos que noutros períodos. O setor da banca poderá, num dado período, oferecer melhores oportunidades que o tecnológico, por exemplo – então consideramos ações da banca. Uns meses depois podem as ações farmacêuticas oferecer melhores oportunidades – então adicionamos ações farmacêuticas ao nosso portefólio. E por aí fora.

O importante é ir adicionando aos poucos ações diferentes ao portefólio. E não querer obter a diversificação máxima no dia 0. Poderás fazê-lo, mas estarás a pagar um preço demasiado elevado por algumas ações, que estejam expostas a setores ou geografias que apresentem preços demasiado elevados nesse momento. É uma possibilidade; mas eu prefiro ir investindo aos poucos e diversificando aos poucos, procurando sempre pagar o menos possível por excelentes empresas em diferentes setores e em diferentes geografias.

 

5. Em resumo

Resumindo, para teres um portefólio diversificado deves procurar ter em carteira ações de diferentes geografias, ações de diferentes setores, e diferentes tipos de players.

Uma carteira bem diversificada tem ações (por exemplo) dos EUA, Canadá, Portugal, Espanha, França, Inglaterra; Holanda, Alemanha, China, Japão, etc. E tem ações dos setores do retalho, banca, tecnológico, farmacêutico, automóvel, industrial, etc. E tem ações mais defensivas e outras com maior potencial de crescimento. Ações de elevada capitalização bolsista, e ações de reduzida capitalização bolsista. E um portefólio bem diversificado vai adicionando ações diferentes ao longo do tempo.

 

 

Assim se faz uma carteira bem-diversificada.

E tu, como estás a montar a tua carteira? Diz-me aí nos comentários de que forma te estás a expor a diferentes geografias ou diferentes setores. Ou que tipo de players não tens no portefólio e queres adicionar nos próximos tempos. Gostaria de saber de que forma estás a diversificar a tua carteira, por isso, conta-me com estás a fazer. E se poder esclarecer alguma dúvida, diz-me!

 

Saudações lucrativas,

Frederico Santarém